sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O DIA EM QUE ELE ENCONTROU-SE COM PRÓPRIO FUTURO



O garoto pobre ocupava a terceira carteira do lado esquerdo da classe, encostada à parede. A turma de sexta série discutia o futuro. O que cada um ali queria da vida quando virasse adulto. A professora caminhava entre os alunos e ia perguntando, ouvindo as respostas e fazendo suas observações.

- Qual a profissão você pretende seguir?

- Eu quero ser jornalista! - cravou uma das estudantes. Morena jambo, estilo índia, bonita. A aluna mais extrovertida da classe estava convicta.

Aquela frase ecoou do outro lado da sala, nos ouvidos do tímido menino de doze anos, como se fosse uma sentença sem apelação.

A palavra "jornalista" ganhou uma dimensão que nunca antes tinha conquistado na imaginação dele. Em segundos, começou um filme mental. A rotina de um trabalho cansativo, mas cheia de dinamismo, glamour e dinheiro. O futuro lhe mostraria que as coisas são um pouco diferentes daquele sonho juvenil. Mas igualmente mágicas.

Apenas sete anos depois, ao lado de um amigo, ele escrevia os primeiros textos pra um jornalzinho estudantil. Foi preciso escrever, fotografar com uma velha Zenith russa, e ainda correr atrás da publicidade para pagar diagramação e gráfica. Mas o primeiro número saiu. A foto da capa era a de um bebê peladinho. A manchete: "Nasceu!"

Nascia ali uma nova pessoa, uma nova carreira. Começava uma vida totalmente diferente da que antes maltratava os sonhos do menino. O amigo não seguiu carreira. Tornou-se escritor e professor.

Da mesma forma, poucos foram os alunos daquela turma que conseguiram botar em prática o desejo manifestado diante de todos. Dos 35, 40 alunos, cerca de metade respondeu à pergunta da professora. A aula, de 50 minutos, não foi suficiente para que todos falassem O menino desta história foi um dos que não teve tempo de responder à pergunta e ficou frustrado. Queria dividir com os colegas a descoberta que tinha acabado de fazer, mesmo que pensassem que ele apenas copiava a ideia de outra colega.

Passados vinte e dois anos, aquela moreninha é uma bem sucedida dentista. Jornalismo, pra ela, está na internet, ou quando senta com a família em frente a TV.

De vez em quando, vê uma reportagem de Ricardo Mello, mas nem sabe que trata-se de um antigo coleguinha que passou pela vida escolar dela sem deixar muitas marcas. Não se lembra daquela aula tão reveladora, e nem imagina que o rapaz que aparece na tv só está lá porque ele conseguiu realizar um sonho que também já fora dela.