segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A EPIDEMIA


Não tenho tempo pra nada, a não ser pra correr contra o tempo. Tudo é pra anteontem. Ontem já é tarde demais. No Rio de Janeiro ultrapasso pela direita porque não há tempo de esperar o motorista da frente abrir caminho. E se ele dá seta para mudar de faixa, acelero. Não posso ficar para trás. Mais um carro na minha frente vai significar, talvez, 10 segundos a mais no trânsito. Uma eternidade!

Em São Paulo, se a velocidade na Marginal, é 40 km/h, 50km/h, 90 km/h, não importa. Vou reclamar. Deveria ser, no mínimo, 120 km/h. E ainda tem radar, essas armadilhas pra me pegar descumprindo a lei. Indústria de multas, de arrecadação. Não interessa se eu tenho poder de escolha. Sou o único que pode escolher fornecer ou não a matéria-prima para essa indústria, mas e daí?. Esses equipamentos tem o único objetivo de barrar a minha intocável velocidade.

Eu subo a escada rolante andando. Ainda bem que existe até sinalização, indicando aos mais lentos que liberem o lado esquerdo.  Se alguém parar na minha frente, peço licença. Se toquem, que eu preciso subir. Já tive a curiosidade de cronometrar. Na estação Barra Funda do Metrô, deixei a escada me levar. No dia seguinte, ajudei a escada e subi andando, junto com ela. Economizei incríveis 12 segundos! Vou ao shopping a passeio. Mas isso não faz diferença. Se tem escada rolante ou não, subo caminhando sempre! É incrível poder chegar à loja 8 segundos mais cedo.

Na rua o ritmo é de operário na hora do almoço. Andar na 25 de Março é uma tortura. Com tanta gente, não dá pra apertar o passo. Caminho na calçada navegando na internet, conversando por mensagem de texto, vendo o último email. Pareço um zumbi, mas o que importa? Não posso esperar. 

Não há tempo.

Sou doente. Mas não sou único. Vivo no meio de uma epidemia de pressa. Nada pode esperar. Não há tempo pra contemplar o sol se pôr no fim de tarde. Nem pra ouvir o passarinho que canta na minha árvore. Tenho que correr. Tenho que fazer duas, três, quatro coisas ao mesmo tempo. No fim do dia, somando toda a minha correria, talvez tenha ganhado cinco, seis minutos para não fazer nada. Ou posso usá-los para ficar um pouco mais na internet. É o meu lucro por um dia inteiro de afobação e impaciência.

Sou doente, sim. Sou mais um número dessa estatística. A epidemia da pressa me contagiou. Mas não me olhe com essa cara de estranheza. Não finja que não sabe do que eu estou falando. Tamojunto!

Vai dizer que não?